A INSTITUIÇÃO DO LAVA-PÉS
Enquanto Jesus realizava a última refeição pascal, diz o relato bíblico que Ele ergueu-Se da mesa, cingiu-Se com uma toalha, despejou água na bacia, ajoelhou-Se e começou a lavar os pés dos discípulos (ver João 13:2, 4 e 5).
A ordenança do lava-pés foi instituída por Cristo como um memorial, cuja intenção era conduzir os Seus seguidores a um estado de ternura e amor, bem como incutir em suas mentes a prática da humildade. Esta ordenança tem sido uma lição exemplar, pois Jesus troca seu papel de Mestre pelo do servo da casa.
Doze homens
e um segredo: Lições do Lava-pés
Naquela noite todos podiam ter entrado para a história como
exemplos universais a serem seguidos. Poderia ter-se ouvido um burburinho, um
corre-corre, uma intensa atividade que faria com que o serviço fosse
rapidamente acabado e todos pudessem tomar seus lugares à mesa e desfrutar de
mais tempo na companhia do grande amigo que estava prestes a partir. Uma noite
memorável que nunca seria esquecida.
De fato, não foi. Porém, não foi do jeito que deveria ser.
Ao contrário, foi uma noite de algum constrangimento. De rostos sem graça
olhando para baixo. De corações que se perguntavam: “Como não pensei nisso
antes?”
Era o dia especial para os judeus, o momento de celebrar a
Páscoa. Era quando lembravam a grande libertação da terra do Egito, quando Deus
desembainhou sua espada contra Faraó e os tirou com mão forte do cativeiro.
Diante deles, o Mestre. O clima andava tenso. Os acontecimentos das próximas
horas mudariam a rumo da história da humanidade. Eles não tinham percebido
isso, mas seria a última páscoa. Aquela refeição seria única na experiência
daqueles homens.
Não havia escravos na casa. O espaço tinha sido cedido por
um homem desconhecido, para que o grupo celebrasse a páscoa. A mobília pronta,
a mesa posta, água, bacia e toalhas. Mas não tinha ninguém para fazer o humilde
serviço de um escravo: lavar os pés dos comensais. Todos esperavam o momento em
que o Mestre começaria mais um de seus discursos, falando aos corações deles
sobre coisas profundas e eternas.
Todos se assentam. A ceia começa. Ninguém se manifesta. De
repente, para surpresa de todos, Ele se levanta. Tira a veste de cima,
enrola-se numa toalha. Sob os olhares espantados de doze pares de olhos, caminha
até uma talha. Derrama água em uma bacia. Chega-se aos pés empoeirados do
primeiro discípulo. Curva-se. Mete a mão na água e lava-os. Enxuga com a
toalha. Vai para o próximo. O silêncio é palpável. Gostariam de enfiar-se num
alçapão e sumir dali.
O silêncio é quebrado, mas antes não tivesse sido. É Pedro.
Ele se recusa. “NUNCA me lavarás os pés”. Devia ter ficado quieto.
Jesus lavou seus pés. Lavou também os de Judas, que daqui a pouco o entregaria
pelo preço de um escravo, 30 moedas de prata. Cada um poderia apresentar suas
desculpas. Judas tinha que sair logo. Ele já nada tinha a ver com aquilo. João,
o apóstolo do amor, não tinha “sentido no coração”. Mateus, o ex-publicano,
podia ter medo de ser mal compreendido por Simão Zelote e vice-versa. André podia
achar que já tinha feito muito de levar Pedro ao Messias. Tomé só acreditaria
vendo e Filipe ainda estava procurando o Pai. Pedro só lavaria o corpo inteiro.
Bartolomeu, Tadeu e Tiago, que tinham ficado de boca fechada até agora, tinham
medo de se manifestar em momento tão crucial.
Os doze homens ainda não tinham aprendido o segredo: “Quem
ser grande entre vós, seja esse o que vos sirva.” Servir aos outros era uma
bênção para o Senhor, não um castigo: “Se sabeis estas coisas,
bem-aventurados sois se as praticardes”. Era uma missão de vida, não
um fardo a ser evitado a todo custo: “O Filho do homem não veio para ser
servido, mas para servir”. Era uma atitude a ser copiada, não uma
performance a ser encenada: “Eu vos dei o exemplo para que como eu vos
fiz, façais vós também.” Enquanto alguns ainda disputavam o lugar
principal, Jesus gastava sua energia assumindo o papel de Servo.
Esta é a ordem no Reino e o segredo de uma vida vitoriosa e
bem sucedida: encontrar prazer em servir aos outros. Alguns discípulos disseram
que estavam dispostos a ir até a morte pelo Senhor. Diz a história que isto foi
o que realmente acabou acontecendo. Porém, até aquele momento, eles não estavam
dispostos sequer a lavar os pés uns dos outros. Nem mesmo os pés do Salvador.
Ainda não estavam totalmente prontos. Foi a primeira lição que Jesus destacou
na última hora em que esteve a sós com seus discípulos. Uma lição que faríamos
bem em aprender.
Uma vida de serviço é o único tipo de vida que realmente
vale a pena.


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